Sobre ele

sobre ele

Encontrei-o no bar. Já tinha ouvido rumores de sua má fama, mas foi naquele bar onde tive certeza: ele não prestava. Admirei a sinceridade que teve ao despejar na mesa a realidade da vida sem freios que vivia e entendi que ele não costumava vestir fantasias de príncipe, ele era sincero ao se declarar sapo. A falta de limites era clara, costumava  encarar o mundo como se fosse apenas dele, mas sempre inconsequente só até certo ponto. Típico menino de prédio, sabe?

O papo era bom, a companhia ótima, e aos poucos passamos a usar os almoços durante a semana e tardes de domingo para contar as histórias das noites passadas e desabafar sobre a correria estressante que nos privava de horas de sono. Em alguns dias tinha beijo, em outros tinha puxão de orelha e ombro amigo, às vezes tinha até puxão de cabelo, e sempre tinha transparência, sinceridade, risadas e arrisco até dizer amizade.

Eu sabia o sapo com quem estava lidando e ele sempre fez questão que eu acreditasse no potencial que eu não enxergava em mim, insistia em dizer que meu sorriso transbordava felicidade e que mesmo com o cabelo preso, eu era linda. Há tempos eu vivia num mar de inseguranças cuja maré tinha mais dias alta do que baixa, mas com poucas palavras ele conseguia acalmar a maré e me fazer nadar novamente. A cada troca de roupas minha autoestima diminuía e a cada almoço ele me lembrava de que não era sobre o que eu vestia, e sim, sobre quem eu era. Insistentemente ele tentava me fazer perceber que não era a beleza que o espelho refletia que me tornava única, e sim, a quantidade de energia boa que eu carregava na alma.

Ele esteve companheiro nas noites de copo cheio de cerveja, som alto e pés dançantes, assim como também se fez parceria quando eu estremeci, desestabilizei, tranquei a porta e gritei “me deixa só!” , e ele tranquilamente respondeu “guria, você tá incrível nessa roupa. Acredita em você! “. Apesar da vida sem freios e da falta de limites, ele foi encaixe perfeito na minha vida naquele momento, foi melhor amigo, conselheiro, fuga de mim mesma, e até aquele gole de vodka que desce queimando e esquenta o coração por uma noite. Me fez aliviar a alma, soltar o cabelo e despir minhas inseguranças de uma forma tão genuína que cheguei a desacreditar. Ele foi feito conexão de voos quando o dinheiro é curto: necessária. 

Decidi partir, era hora. Ele ajudou com as malas, me encorajou, me fortaleceu para o caminho que estava à minha espera e não permitiu que eu desistisse nem se quer vacilasse. Era preciso que eu seguisse sozinha e desprendesse de quem acalmava minha maré de inseguranças. Era hora de voar livre. Era hora de voar longe.  Ele me abraçou e disse: “Vai com Deus, menina do cabelo preso e do sorriso lindo”. E eu voei.


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